sexta-feira, 29 de outubro de 2010

Entre nós

Amar é importante.
Sentir o amor, sentir-se amado é importante.

O grande mal que atinge o mundo é a ausência daquilo que chamamos o maior de todos os sentimentos e a maior dentre todas as coisas.

Não falo aqui do amor carnal, embora este entre em conta na contabilidade da felicidade de cada um de nós.
O que falo é no amor que gera a atenção, aquele devido e reclamado por cada ser, mas mais reclamado que tudo, como se o dar não fizesse parte do acordo implícito em cada relação humana.

As pessoas desinteressam-se das outras, porque dizem-se ter o suficiente com os próprios problemas.
E o têm, provavelmente.
Mas o que gera o isolamento, a solidão temida, é justamente querer receber aquilo que nos recusamos a dar.

O que falta é a atenção necessária ao outro para sentir-se, pelo menos, ouvido e parte integrante na roda da vida.

Cada um fala por si e poucos são os que se importam realmente com que o outro diz, com seus reais sentimentos, suas reais razões.

Muitas e muitas vezes quando um fala, o outro já está preparando-se para dizer, sem ponderar, aquilo que ele mesmo pensa ou sente.

Pessoas tornam-se assim, surdas às outras, porque só conseguem ouvir a voz do próprio egoísmo, não por maldade, mas pelo apelo das próprias necessidades.

Pessoas juntas sentem-se sozinhas, casais unidos pela vida sentem-se abandonados, amigos criam relações superficiais, pais e filhos distanciam-se.

Olhar nos olhos do outro é importante.
Perceber a dor ou a felicidade e compartilhar dela é fundamental ao outro na sua necessidade de se sentir amado.

Poucos, raros mesmo, são os que param o que estão fazendo quando o companheiro, amigo ou colega de trabalho precisam falar.
Parte do que se diz fica desconectada no ar e a outra parte, invariáveis vezes, esquecidas depois.
Numa fração de segundo a frase "do que mesmo estávamos falando?"
pode entrar na conversa, deixar um sem ação e o outro sem graça.

A atenção dada ou recebida faz parte do tratamento e da cura dos males que tomam conta do mundo, ela reforça relações, cria laços, solda, une e faz bem.

Não ouvimos Deus porque não queremos ouvir, porque, quem sabe, o que Ele quer nos dizer nos desagrada e contraria, mas Ele fala e só percebemos isso depois com o infalível "eu sabia" que nos fere como um punhal.

Não somos ouvidos por Ele porque não abrimos inteiramente nosso eu, temos sempre pressa, estamos sempre ocupados.

Entre Deus e nós e entre nós e os outros somos os que definimos o tipo de relação que temos.

Podemos colocar o primeiro tijolo ou esperar que alguém o faça.
Porém a ordem com que este é colocado influencia e determina cada um dos nossos passos e abre ou fecha para nós as portas do paraíso.

TEXTO: Letícia Thompson

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